Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2ª Timóteo 3:16). Portanto, toda doutrina verdadeiramente bíblica possui autoridade divina e deve ser recebida com reverência.
Entretanto, a própria Bíblia demonstra que nem todas as
verdades ocupam o mesmo lugar dentro da revelação de Deus. Existem doutrinas
que estão no centro da fé cristã e definem o próprio evangelho; existem
doutrinas que regulam a vida e a ordem da igreja; e existem questões nas quais
cristãos sinceros podem apresentar diferentes entendimentos sem que isso
signifique abandono da fé.
Não reconhecer essa distinção pode levar a dois extremos
perigosos: Transformar toda divergência de interpretação em motivo de separação
e tratar como secundário aquilo que Deus claramente ordenou.
O equilíbrio bíblico nos ensina a valorizar toda a Palavra de
Deus, reconhecendo que algumas verdades são de primeira importância.
1. Doutrinas Fundamentais da Fé: As Verdades que Definem o Evangelho
As doutrinas fundamentais são aquelas que constituem o
alicerce da fé cristã. São verdades sem as quais o cristianismo deixa de ser
aquilo que a Bíblia revela.
Paulo, ao escrever aos coríntios, declara: "Antes de
tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos
pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro
dia..." (1ª Coríntios 15:3-4).
Essas verdades são inegociáveis porque fazem parte do próprio
fundamento do evangelho.
Paulo advertiu: "Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo
vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja
anátema." (Gálatas 1:8)
E Judas nos exorta: "Batalhar pela fé que uma vez por
todas foi entregue aos santos." (Judas
3)
A defesa dessas verdades não é uma questão de preferência
teológica; é um compromisso com o próprio evangelho.
2. Doutrinas Eclesiológicas: Os Ensinos Sobre a Vida e a Ordem da Igreja
Além das doutrinas fundamentais, a Bíblia apresenta diversos
ensinos relacionados à vida prática da igreja local.
Esses ensinos não definem o evangelho, mas definem como a
igreja deve viver, se organizar e testemunhar de Cristo ao mundo.
Encontramos esses ensinos especialmente nas cartas de Paulo
às igrejas e nas orientações dadas aos líderes em 1ª Timóteo e Tito.
Entre eles estão: o batismo; a Ceia do Senhor; a disciplina
da igreja; a liderança espiritual; a pluralidade de presbíteros; o papel do
homem e da mulher na igreja; o uso do véu; os dons espirituais; a ordem do
culto; a autonomia da igreja local.
Esses assuntos são bíblicos e não devem ser tratados como
simples tradições humanas. A igreja deve buscar compreender e obedecer aquilo
que Deus revelou.
Porém, é importante reconhecer que divergências nessas áreas
nem sempre significam rejeição do evangelho ou ausência de fidelidade a Cristo.
Cada igreja local possui a responsabilidade diante do Senhor
de buscar obedecer fielmente às Escrituras.
Paulo declarou aos presbíteros de Éfeso: "Atendei por
vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos,
para pastoreardes a igreja de Deus..." (Atos 20:28)
E o escritor aos Hebreus afirma: "Obedecei aos vossos
guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma como quem deve
prestar contas." (Hebreus 13:17)
A responsabilidade espiritual de uma igreja local pertence
aos seus próprios líderes diante de Cristo.
3. Questões em Que Existem Divergências Entre Cristãos Fiéis
Existem ainda áreas nas quais cristãos comprometidos com a
autoridade das Escrituras podem chegar a diferentes conclusões.
Isso não significa que a verdade seja relativa, mas reconhece
que homens sinceros e piedosos podem interpretar determinados textos de
maneiras diferentes.
Um exemplo bíblico está em Romanos 14, onde Paulo trata de
questões de consciência relacionadas a alimentos e dias especiais.
Ele escreve: "Quem és tu que julgas o servo alheio? Para
o seu próprio senhor está em pé ou cai." (Romanos 14:4)
Também existem diferenças entre cristãos fiéis em algumas
questões escatológicas, como: o momento do arrebatamento; a interpretação do
milênio; alguns aspectos relacionados aos acontecimentos futuros.
Nessas áreas, a atitude bíblica não é desprezo, condenação ou
ruptura, mas humildade, amor e busca sincera pela verdade.
Como Devemos Lidar com
as Diferenças?
A Bíblia não nos chama nem ao relativismo nem ao espírito de
contenda.
Somos chamados a:
Defender a verdade com
amor - "Seguindo
a verdade em amor..." (Efésios
4:15)
Ensinar com mansidão - "Ao servo do Senhor não convém
contender, mas ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente,
disciplinando com mansidão os que se opõem." (2 Timóteo 2:24-25)
Evitar discussões
inúteis - "Evita
discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não
têm utilidade e são fúteis." (Tito
3:9)
A maturidade cristã não está apenas em conhecer a verdade,
mas em saber como sustentá-la.
A Autonomia da Igreja
Local
Um princípio importante do Novo Testamento é que cada igreja
local responde diretamente ao Senhor Jesus Cristo, que é o Cabeça da Igreja.
Cada assembleia possui: seus próprios presbíteros; sua
própria responsabilidade espiritual; seu próprio compromisso diante da Palavra
de Deus.
Nenhuma igreja local foi constituída pelo Novo Testamento
como autoridade sobre as demais.
Isso não elimina: o ensino; a cooperação; a exortação; o
diálogo e a comunhão entre irmãos, mas impede uma postura de controle ou
interferência indevida.
Podemos ensinar a verdade, compartilhar convicções e alertar
sobre erros, mas devemos reconhecer que cada igreja prestará contas ao Senhor
pela maneira como conduz o rebanho que recebeu.
O Novo Testamento nos chama a manter dois compromissos
inseparáveis: fidelidade absoluta à verdade revelada e amor sincero pelos
irmãos.
Devemos defender com firmeza as doutrinas fundamentais do
evangelho, ensinar com diligência todos os conselhos de Deus e respeitar a
responsabilidade que Cristo confiou a cada igreja local.
A unidade da Igreja não nasce da uniformidade absoluta em
todos os pontos, mas da submissão comum ao Senhor Jesus Cristo e à autoridade
das Escrituras.
O desafio da maturidade
cristã é este: não
diminuir a verdade para preservar uma falsa unidade, nem transformar diferenças
de entendimento em barreiras que Cristo não estabeleceu.
Assim preservaremos, ao mesmo tempo, a pureza da fé e a
beleza da comunhão, permanecendo firmes na verdade e caminhando sempre em amor.
A Deus somente seja a glória
RmC/MdC

